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"Alguns culpariam o vinho roubado no armário privativo do diretor. Outros culpariam a clausura, o tempo demasiadamente longo que passamos presos naquela escola, pois nenhum dos quatro havia ido para casa nas férias de natal. Mas não era isso, nada do que pudessem imaginar poderia descrever o que acabou acontecendo naquele final de inverno de 2011.
Eu posso contar, se tiverem paciência e se não se chocarem com o que estão a ponto de descobrir. Se esperam uma simples história adolescente, cheia de idas e vindas fúteis e sem sentido, não continuem. O que aconteceu naquele ano nos mudou, mudou nossas vidas. Para sempre.
Meados de fevereiro de 2011 e a neve já estava desaparecendo dos jardins. A piscina logo seria liberada para uso novamente. Mas isso estava longe da minha mente, pois as aulas de literatura estavam cada vez mais interessantes. A nova professora estava encantando até mesmo os mais rebeldes, com suas aulas práticas e divertidas. Já havíamos encenado uma peça de teatro, preparada às pressas, e estávamos ensaiando outra. Ela era uma mulher incansável e parecia transmitir isso para todos a sua volta. Diferente da professora anterior, uma velha ranzinza e que já estava pronta para morrer, ela era independente, jovem e determinada. Seu nome? Beatrice Lefrève.
Em meio aos ensaios da peça e as aulas diárias de Beatrice, a turma estava se mostrando unida como nunca antes. Quatro alunos em particular, eu dentre eles.
Tudo começou quando, no início de fevereiro, como parte do currículo escolar, a professora solicitou um trabalho em grupo. Nós devíamos fazer um relatório sobre um filme baseado em uma obra literária. Comparar o roteiro com a obra original, estudar os personagens e notar as diferenças da história vista para a história escrita. Os grupos foram divididos por ela, aleatoriamente. Quatro grupos de quatro alunos. Eu, Lucien Gillet, fui colocado no último grupo com meu amigo, Bernard Rousseau, e os gêmeos Blanchard, Donatien e Désirée.
Donatien Blanchard era um filhinho de papai. Não que fosse diferente de todos ali, mas ele, ao contrário de muitos, ainda parecia um boneco de porcelana moldado pelos pais. Sua irmã, Désirée, tinha mais potencial que ele, mas ainda não conseguiu se soltar totalmente das correntes.
Bernard e eu éramos diferentes. Assim como os gêmeos, nossas famílias eram ricas e exigentes, mas nos rebelamos cedo. Isso estava claro na nossa forma de vestir e agir, em nossas escolhas e em tudo a nossa volta.
Uma mistura perigosa, eu diria hoje. Mas, naquela época, ainda não nos conhecíamos tão bem. Por isso, quando Beatrice terminou de listar os nomes, apenas encarei Bernard, tentando transmitir em meu olhar um único pensamento: Vai ser um tédio.
Oh, mon amis, eu não poderia estar mais errado."
----- Lucien Gillet, 17 anos.

"Sentei ao lado de Dési, encarando meus dois recém-estabelecidos colegas de grupo com atenção. Bernard Rousseau parecia razoável. Era ao que tudo indicava um bom aluno, meu suplente nas tarefas de representante de classe e de boa reputação. Já Lucien Gillet... hm, aquilo era um peso morto. Um desses rapazes que pensam que uma pretensa rebeldia é o ingrediente principal para conseguir chamar atenção para si. Bastava olhar para as tatuagens da criatura, e para o modo com que ele esfregava o sobrenome de sua família na lama dentro daquela escola... mas eh bien, c'est la vie, n'est pas?
Tínhamos reservado a sala de vídeo, e cada um de nós trouxe sua sugestão de filme. Meu interesse por filmes de ação e investigação - além da minha falta de criatividade - me levou a trazer Anjos e Demônios, baseado na obra homônima de Dan Brown. Sabia que Désirée havia trazido um também, mas não sabia qual era. Quanto aos outros dois... menos ainda.
Foi Gillet quem pronunciou-se primeiro, anunciando que ele e Rousseau já haviam concordado em um filme da preferência de ambos. Apresentou-o como Os Sonhadores, dirigido por Bertolucci e baseado no livro Os Sagrados Inocentes, de um escocês chamado Gilbert Adair. Mas aparentemente a história passava-se na França.
Quando se é criado com o grau de rigidez e disciplina com que fui, a seriedade e o distanciamento tornam-se mais que um hábito. Mantive-me imóvel conforme as imagens do filme apresentado pelos dois rapazes surgiam diante dos meus olhos e, embora por um longo pedaço no começo eu o tenha achado enfadonho como a maioria dos filmes europeus, minha opinião mudou rapidamente. Um único motivo, na verdade... Eva Green. Fiquei inegavelmente excitado diante da visão dos seus seios, hipnotizado pela curva dos seus quadris e pela linha coberta de pêlos no seu púbis.
Ao mesmo tempo, relanceava o olhar para minha irmã, acreditando que ela não devia estar vendo um filme como aquele. Na verdade, quase exigi que parassem a exibição mais de uma vez. Contudo... era como se eu não conseguisse desviar o olhar, ou emitir um som. Compreenda, naquela época nada daquilo era parte da minha realidade. Eu havia sido criado em colégios particulares para rapazes em regime de internato, normalmente dirigidos por padres e com algum fundo militar na disciplina. Eu era, então, exatamente o que meu pai dedicou-se tanto para que eu fosse: um rapaz modelo, pronto para assumir minha função no topo da pirâmide social, com um bom casamento cristão e um futuro perfeitamente previsível.
Mas o que mais mexeu comigo naquele filme... e o que na verdade fez com que eu ficasse furioso com Rousseau e Gillet por pensar que estavam zombando de mim... foi o fato de dois dos personagens principais serem irmãos. E gêmeos. Como Désirée e eu. E eles viviam uma relação incestuosa!...
No fundo da minha mente eu vi uma cena há muito esquecida, que surgiu de súbito, pegando-me de surpresa: uma tempestade elétrica. O ronco do trovão parecendo sacudir as paredes. E, sob o cobertor, uma mão pequena agarrou a minha, braços finos envolvendo meu corpo. Mas a imagem sumiu quase que imediatamente.
- Vocês estão zombando de nós - eu falei ao fim da exibição, tentando manter um tom controlado.
Bien, de fato eles estavam. Mas então, o jogo estava apenas começando."
----- Donatien Blanchard, 17 anos.

"Exibir um filme como aquele em pleno solo de L'Académie de Grenoble era muito mais que pregar peças em um casal de gêmeos. Talvez os demais não vissem a grandiosidade do que havia ali, na quebra de dezenas de regras e, segundo a maioria dos professores/padres dali, 'a garantia do fogo do inferno'. Era magnífico, brilhante.
Mas, de fato, havia ali a zombaria. Sempre havia. E foi simplesmente impossível evitar o sorriso presunçoso quando o certinho Donatien Blanchard sentiu-se ofendido pela escolha de Lucien. Eu particularmente acreditava que ainda havia salvação para Donatien, sabe? Uma personalidade própria por debaixo de toda aquela pose de filho perfeito. E, é claro, havia Désirée. E eu admito que, naquela época, não havia percebido o potencial que a garota tinha para livrar-se da prisão das aparências que nos era imposta.
Mas voltemos à grandiosidade do que havia ali, criada da simples ideia de um trabalho escolar. Será que algum deles tinha alguma ideia da facilidade que tivemos em exibir um filme como Os Sonhadores na sala de vídeo? Sem supervisão, sem controle... estávamos agora interligados, nós quatro, mesmo sem perceber. Éramos infratores, pecadores, chame do nome que preferir... éramos marginais.
- Isto é mais que uma zombaria... mais que um trabalho escolar. Conseguem ver o que acabamos de fazer aqui? Destruímos uma barreira, uma das paredes da prisão que gentilmente chamamos de escola! Iniciamos aqui nossa própria rebelião de estudantes, nossa própria maneira de sacudir esses velhos costumes aos quais ainda somos submetidos.
É, eu era dado aos discursos pomposos. Ainda sou, admito. Mas a questão é que a ideia de criar uma sociedade foi posta em pauta, ali, naquele momento.. A paixão pelo cinema, pelas artes, a liberdade de expressão, o amor e prazer livres de rótulos... e por que não, também um teste. Seriam os Blanchard capazes de aceitar uma ousadia daquelas, a quebra de tantas regras e da moral enfiada em suas cabeças por anos a fio?
Bom, naquele tempo eu duvidava... mas é claro que eu estava redondamente enganado. Naquela tarde, La Société de Rêveurs foi criada. Nós quatro, seus fundadores, iniciaríamos ali o pacto que nos uniria desde então."
----- Bernard Rousseau, 17 anos.

"Ainda recordo do fascínio que o encarte do filme me proporcionou: "Nenhum Pecado Permanece em Segredo", e confesso que tal verdade abalou os mais íntimos desejos que guardava dentro de mim. A frase nascia clássica, junto com outras tantas passagens espirituosas de Os sonhadores. Ah, Matthew...
O inocente jovem desafia les jumeaux a crescerem, a lutarem, mas ele mesmo prefere o discurso pacifista ao confronto de verdade; o sexo inevitável surge lúdico e inocente, o incesto se mostra mais poético do que carnal... como se tal enredo estivesse sendo aplicado entre chers amis Gillet e Rousseau.
Zombaria? - como bradou meu irmão - haveria quem se sentisse escandalizado com a libertinagem, mas o fato é que o amor era só mais uma peça, e não o fator dominante, nesse conto de amadurecimento.
Confesso ainda que grande parte de minhas relações interpessoais findavam à um propósito, uma "troca de favores", e naquele instante percebi a ínfima possibilidade de uma aproximação entre eu e meu irmão. E foi ao som de Joplin, Doors, Dylan, Hendrix, ícones de uma geração, que Bernard declarou nossa independência intelectual.
Ainda que tenha surgido represálias de minha outra metade, percebi naquele momento a grandiosidade que poderia conquistar me aliando a rebeldia de Lucien Gillet e ao espírito revolucionário de Bernard Rousseau. E então...
- Pop! Six! Squish! Uh Uh! Cicero! Lipschitz! - recitava enquanto dedilhava meus dedos na madeira polida da carteira em que me encontrava. - Que filme? - perguntei à Bernard. - Em que filme tem mulheres que dançam assim com bailarinos de tango?
- Eu vi este filme? - indagou o belo rapaz ajeitando os fios louros para trás da orelha. - Me dá uma pista? - questionou olhando em meus olhos.
- Claro que não. - respondi de forma cínica, como de costume.
- Vamos, o nome do diretor? - suplicou mais uma vez.
- Não. - respondi pondo-me em pé.
- O número de palavras no título? - questionava com um sorriso jocoso em seus lábios. Donatien nos encarava com olhos infantis e inocentes, enquanto Lucien assoviava no ritmo do tango.
- Eu disse não. - mais uma resposta com semblante de menina mimada.
- Désirée - disse Bernard recostando em sua carteira.
- Não! - neguei enquanto reproduzia toscos passos de tango que aprendera tempos atrás.
- A primeira letra da primeira palavra? - suplicava insistentemente.
- Deus, você é patético. Ele não é patético, Lucien? - aticei minha plateia.
- Bernard, eu aposto que você sabe. - disse Lucien interrompendo o assovio.
- Você não ousaria ajudá-lo. Nem pense em ajudá-lo, a Esfinge deu alguma pista para Édipo? - questionei de forma zombeteira.
- Dane-se! - resmungou o menino.
- Pop! Six! Squish! Uh Uh! Cicero! Lipschitz! - dançava e cantava - Desiste? - dei-lhe a última chance.
- Sim! - desistiu mal-humorado.
- "Chicago" - respondi imitando Velma Kelly ao contar o assassinato de Veronica e Charlie.
- Droga! - Bernard desanimou assumindo seu erro.
- Prenda - desafiei como Isabelle propôs a Theo.
- Se você insiste - Bernard concordou, continuando com meu raciocínio.
- Eu o desafio a fazer agora, na nossa frente, o que vi você fazendo com ele. - propus.
- Quem? - questionou os ingênuos olhos de meu irmão.
- Não sei do que está falando. - respondeu Bernard com outra risada, desta vez de satisfação.
- Sim você sabe, mon chér. Pague a prenda. - impus o veredito.
- Você é uma cadela. Uma cadela e sádica. - disse Lucien com um sorriso estampado e ar zombeteiro.
- Você vai pagar a prenda ou não? - questionei tocando o ombro de Donatien, que encontrava-se inquieto ao ouvir o insulto de Lucien.
- Está bem - levantou-se num pulo em direção ao jovem tatuado e acariciou-lhe o rosto.
- Hum, hum, hum. Faça isto do mesmo jeito como você fez antes, quando achava que ninguém estava vendo. - ordenei enquanto meu irmão encarava nossos rostos incrédulo.
Lucien levantou-se e pôs-se de frente para Bernard. O silêncio pairou no ambiente enquanto ambos encaravam-se por alguns segundos. As mãos de Bernard envolveram o rosto de Lucien, que tombou a cabeça para trás prolongando seu pescoço, agora sendo tocado pelos lábios carnudos do louro. Bernard chupava-lhe a brancura deixando manchas róseas; sua língua macia provocava arrepios intensos na pele do outro, que gemia até que as bocas se encontraram num ávido e deseperado beijo. O beijo bruto masculino, seguido de mãos fortes que apertavam e puxavam enquanto rendiam-se a volúpia do prazer.
- ... eu não estou vendo isso. Vous êtes... absurde! - disse meu irmão, sem conseguir desviar os olhos do beijo entre Lucien e Bernard. Então, ele levantou-se de súbito derrubando a carteira num estardalhaço, interrompendo a cena.
Observamos Donatien abandonar a sala de vídeo, porém era tarde demais. Nós havíamos iniciado uma fiel união, c'est pour toujour."
----- Désirée Blanchard, 17 anos.
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